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Berlim: Memorial aos Judeus Assassinados na Europa (Parque de Lápides de Berlim)

Berlim, Dezembro de 2010

Sob o extenso parque de lápides, uma galeria subterrânea contém fotos e um abrangente banco de dados informatizado sobre as vítimas do holocausto, ocorrido durante o período da II Guerra Mundial.

Localizado a cerca de 300 metros do Portão de Brandenburgo, no terreno que outrora abrigava o prédio da chancelaria de Hitler, hoje demolido, o  Memorial aos Judeus Assassinados na Europa lembra, à primeira vista, um grande cemitério. Essa impressão destaca-se ainda mais durante o inverno.

As lápides - 2.711 no total, dispostas lado a lado em uma imensa grade - embora bastante semelhantes entre si, têm alturas diferentes, talvez como forma de individualizar as características próprias de cada uma das vítimas.

Com 2.711 lápides, a parte superior do Memorial não tem muros nem portões e pode ser percorrida a qualquer hora.

"Uma floresta de pilares, relembrando o inimaginável" (The New York Times).
Entre as lápides maiores, formam-se corredores que inspiram certa apreensão ao serem percorridos. A meta do idealizador do memorial - o arquiteto Peter Eisenman - é colocar o visitante na posição de desorientação das vítimas do holocausto.
A impressionante visão aérea do mar de lápides que compõe o memorial.
(Foto: blog Holocausto/Shoah)

No interior da galeria sob o Parque de Lápides, uma placa contendo as palavras de Primo Levi, pensador italiano (ele próprio, ex-prisioneiro do campo de concentração nazista de Auschwitz-Birkenau) discorrendo sobre a importância de relembrar o holocausto: Aconteceu, então pode acontecer novamente: isso é o núcleo do que temos a dizer.

Diferentemente da abstração purista do parque de lápides logo acima, a galeria no subsolo mostra o lado familiar e individual daqueles que sofreram o terror do holocausto.
Diversos relatos, cartas e anotações deixados pelas vítimas dos campos de concentração encontram-se expostos em detalhes, como o seguinte bilhete, recuperado de um dos campos:
31 de julho de 1942 - Querido pai! Estou dizendo adeus a você antes de morrer. Nós adoraríamos tanto viver, mas eles não permitirão e nós iremos morrer. Estou tão amedrontado com a morte, porque as crianças pequenas são jogadas vivas nas covas. Adeus para sempre. Beijo-o ternamente.

Mais de 300 campos de concentração espalhados pela Europa na época da II Guerra Mundial são mostrados no mapa exposto no Memorial.

A seguir, o excelente texto extraído do site português Holocausto/Shoah:

     Após 17 anos de críticas, debates, escândalos e concessões em 2005 foi inaugurado o Memorial do Holocausto de Berlim. O resultado é um lugar construído, quase um não-lugar, uma lembrança dedicada aos judeus assassinados e não um registro das barbaridades em si.

     Em 90 mil metros quadrados, 2711 colunas. A cor, o cinza escuro. A referência automática, um cemitério, mesmo que esta associação seja recusada por Peter Eisenman. "A simplicidade é talvez o que provoca", assinala o arquitecto.

Personificação do horror

     No subterrâneo, ao qual se acede através de uma escada que se encontra quase "de repente", está instalado o Centro de Informações. Nenhuma placa, nenhuma indicação. Na entrada, seis rostos, com os nomes e origem, personificam de forma directa a morte dos seis milhões de judeus. As cores: preto, branco e cinza. São quatro espaços quadrados.

     "É um grito silencioso no espaço climatizado. As imagens são relativamente pequenas, há poucos registros das montanhas de cadáveres, quase nada do horror das câmaras de gás, dos tiros, dos espancamentos, enforcamentos, torturas até a morte. À abstracção do Memorial corresponde uma certa decência da documentação", observa o diário Der Tagesspiegel.

     Um banco de dados dispõe cerca de 700 biografias, uma amostra do total de seis milhões de vítimas da Shoah. A partir do momento em que estes indivíduos, com seus nomes e dados biográficos – idade, profissão, estado civil e condições em que morreram – são extraídos do todo, o visitante vê-se confrontado com histórias individuais, pessoais.

Dimensões da memória

     Para o visitante que circula entre as colunas e depois desce "aos porões", a existência do Memorial provoca, como descreve o diário Der Tagesspiegel, "uma pequena viagem: do nós até o eu. Visto de fora, o Memorial é dominado pela massa pura, por suas dimensões, pela amplitude do campo de colunas em cinza escuro. Neste momento, a percepção tende a ser colectiva, abstracta, geral – não importa se gostando ou não da arquitectura de Eisenman. Dentro, o indivíduo entra em contacto com as lembranças individuais".

     O filósofo italiano Giorgio Agamben, em texto publicado sobre o Memorial no semanário Die Zeit, vê o mérito da obra de Eisenman exactamente "no limiar entre as duas dimensões topográficas: uma sobre o solo, exposta, mas na qual nada se lê. E outra subterrânea, onde se tem acesso à leitura".

Estetização da História

     Bildunterschrift: Outra preocupação dos críticos avessos à existência do Memorial é o medo de que os cenários originais dos horrores do Holocausto fiquem esquecidos, quase "às moscas", como denunciam alguns. E isso sem esquecer que muitos deles ficam às portas de Berlim, como Sachsenhausen. "Não seria apenas lamentável, mas escandaloso, se os outros pequenos memoriais que existem nos cenários originais, a longo prazo, viessem a pagar o preço pela construção do Memorial em Berlim", observou Paul Spiegel, presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha.

     Outras questões vêm inevitavelmente à tona: Será o Memorial uma forma de representar publicamente a culpa, como forma de selar o passado de "normal"? Trata-se de expor a História, para dela se livrar? "As lembranças dos sobreviventes do nazismo desaparecem. A lembrança imediata do vivido é mediatizada. A História transforma-se em imagem. Com o Memorial do Holocausto os cenários originais e os campos de concentração perdem em interesse. O espaço urbano encenado passa a ocupar, para muitos, o lugar dos cenários originais. A História é estetizada", conclui o diário taz.

     Memorial do Holocausto - Situado nas proximidades da Porta de Brandemburgo, Potsdamer Platz e do Reichstag.

     (Texto em negrito extraído do site português Holocausto/Shoah).


Berlim, Dezembro de 2010

Links relacionados:


             Alemanha: campo de concentração nazista de Dachau


             MEMORIAL DO HOLOCAUSTO - Miami


Um comentário:

etomi disse...

Impressionante meu amigo. Com certeza, serve de lição para o mundo todo.