Musicos Herdeiros da Guerra


OS MUSICOS HERDEIROS DA GUERRA
Quando visitei os arredores de Siem Reap, no norte do Camboja, encontrei tres bandas de musicos locais. Cada uma em um local diferente, nas entradas dos grandes templos milenares da civilizacao Khmer.
Gostei da musica e comprei um CD de uma das bandas.
Mas o que chamava a atencao, e' que todos os musicos eram paraplegicos, cegos ou surdos, em decorrencia de acidentes com minas terrestres.
O Camboja e' o pais com maior numero de minas terrestres perdidas no solo. Elas foram plantadas no longo periodo de trinta anos de guerra que se seguiu desde a decada de 50.
A cada ano, as minas terrestres vitimam milhares de cidadaos locais, agricultores, outros trabalhadores, ou simplesmente criancas, algumas das quais encontram o artefato, brincam com a peca mortal, ate dispara-la, perdendo a vida ou, com sorte, os bracos, os olhos e a audicao.
Diversos paises desenvolvidos, alem da ONU, tem auxiliado na extracao das minas terrestres, mas existem cidades em que ainda e' um risco pisar fora das ruas pavimentadas.
Pude assistir a um documentario em que um centro de tratamento de animais tentava salvar um elefante, cuja perna dianteira foi detonada por uma mina. Espero que tenham tido sucesso.
Ao lado dos musicos das bandas que vi, estavam as proteses de pernas, daqueles em que esse artificio ainda era possivel.
A heranca da guerra continua. O Camboja hoje abre-se para o mundo com honestidade e profissionalismo, orgulhoso de seus palacios atuais e dos palacios de mil anos.
Somente a heranca milenar ja' justifica a visita. Mas ela traz muitas outras reflexoes ao viajante: como podem os povos se auto-digerirem, de tempos em tempos, em matancas genocidas, sistematicas e sem reflexao?
Para mim, que nasci e sempre vivi em tempos de paz, a guerra e' um enigma indecifravel. Nunca irei entede-la nem apoia-la.
Sempre encontrei cordialidade em todos os povos que visitei, e neles vejo um pouco da minha face refletida. A tolerancia deveria ser um componente genetico da especie humana.
Phnom Penh, 11 jan. 2006
Julio Cesar
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