Riquezas e Miserias da India
Riquezas e Miserias da IndiaA India e' um dipolo perfeito: de um lado, maravilhas arquelogicas fascinantes, trajes e cores que capturam nosso olhar, cheiros e temperos novos. De outro lado, a face oposta: escombros infindaveis, complacencia com a sujeira, e trapacas contra os turistas incautos.
Mas confesso que era exatamente isso que eu esperava da India: um pais fascinante por suas maravilhas arquitetonicas, arqueologicas e antropologicas, mas que assusta pela miseria crua e sem cura.
Desde que li a obra "Na Pele de Um Intocavel", do frances Marc Boulet (358 paginas, Editora Bertrand Brasil, 1996), reforcei o olhar de compaixao com que vejo os miseraveis e indigentes indianos.
Li o livro em agosto, e acho que antecipei o choque que teria hoje.
O autor, jornalista frances, viveu a experiencia de passar seis meses como mendigo em Varanasi, no leste da India, e descreve cruamente aquilo que hoje posso ver (de relance) com meus olhos: o mundo daqueles que tem, como patrimonio, somente a roupa do corpo.
E nao se trata de um mundo pequeno: na India, mais de 200 milhoes de pessoas neascem, vivem e morrem nas ruas. E' mais que a populacao do Brasil.
Nessa esfera da realidade, o oleo comestivel e' vendido por centilitros. Cigarros sao vendidos por unidade. Vive-se com 30 dolares por mes. Ou menos. Para muitos, a comida e' implorada, em templos religiosos.
Sinto compaixao por esses quase-humanos. Ja' superei a repulsa. Olho as ruas com naturalidade. Admiro-me com as cores dos trajes, com camelos de carga, e com alimentos e frutas que eu nao comeria.
Ja' coleciono uma pequena lista de maravilhas que vi, nesses dois dias: Ruelas fervilhantes de gente, em Delhi, templos estrondosos, pessoas exoticas e bonitas em seus paradigmas, roupas de outra realidade, camelos que puxam carrocas, em Jaipur.
A partir de amanha, se nao formos "engambelados" por algum agente de turismo interno, iremos, mais ainda, nos maravilhar com essa enxurrada caotica da diversidade cultural.
Estou gostando muito da India.
Julio Cesar - Délhi, 27 de dezembro de 2005
-----------------------------------------------------------------------------
A verdadeira India
1. Quero falar um pouco sobre a India. Antes de vir, suspeitava que a India tinha serios problemas de superpulacao, infra-estrutura, etc.
Mas nada me preparou para o que vejo. Em todo lugar, em cada rua, em qualquer direcao que se olhe, milhares de mendigos, maltrapilhos, correndo de um lado para o outro, ou simplesmente parados, olhando para o nada.
Casas, lojas, escritorios e oficinas formam uma continuidade apavorante de escombros, carcomidos pela indiferenca. Nao ha um "centro da cidade" e uma "periferia": e' tudo cinza e corroido, desgastado, de algum modo corrompido. Da mesma maneira os bancos, reparticoes publicas, escolas. Nada se salva na India real, exceto, talvez, as ruinas de civilizacoes preteritas, com templos e monumentos que tentam desmentir a realidade com uma suntuosidade ilicita.
Nada e moderno, nem classico, nem ousado nem grandioso, nem mesmo kitsch: tudo e lixo, escombro e degredo, numa escalada insuportavel que cassa a alegria.
2. O homem
Nada e' mais catastrofico, na India, que seu elemento humano. Nao estamos falando de pobreza, apenas. Trata-se de um oceano de pessoas de pele parda, baixas, no geral, e magras. Pedem esmolas, cobram gorjetas, vendem porcarias, negam o contrato que acabaram de firmar: nenhuma indignidade lhes e' estranha.
Andam dependuradas em onibus, ou dentro de carros, riquixas, de bicicleta ou 'a pe: transformam cada rua num pesadelo crescente, que suplanta e destroi a India das paisagens e monumentos.
No fog de Delhi, ou qualquer outra cidade, milhoes correm fantasmagoricamente atras de alguma esmola, uma propina. Descrevem um lugubre espetaculo de fome e miseria, sem apelo.
Aos poucos, ve-se que as pessoas formam uma continuidade com as ruinas e escombros, e unem-se num rio de nojo e desespero.
Gerson Noronha Mota
Nenhum comentário:
Postar um comentário