Vergonha
Não tenho vergonha de pequenas "gafes", inevitáveis quando se visita um país estrangeiro, com cultura distinta. Como, por exemplo, na primeira vez que eu entrei em um restaurante em Tóquio, fui recebido por uma garçonete que recitou uma longa seqüência de frases em japonês, rápidas e ininterruptas.Pensando que se tratava de um questionário verbal, interpeleia-a em inglês, tentando entender as frases enunciadas. Ao final, compreendi que bastava, de minha parte, um leve sorriso e um aceno de cabeca, pois o rosário de palavras consistia, simplesmente, em boas vindas e cumprimentos, gentis e reiterados.
Mas ha' situacões de vergonha real, nas quais a única solução e' tentar extrair uma licao positiva, fazendo a celebre limonada a partir do limao azedo.
O confronto cultural ocorreu enquanto eu fazia pequenas compras no bairro de Akihabara, na regiao central de Toquio.
Entrei na primeira loja escolhida, repleta de pequenos produtos eletronicos, dispostos em prateleiras abertas.
Dentro da loja, percebi que os vendedores alternavam-se a entoar algo que parecia um anuncio, em japones, que me acompanhava pelos cantos aonde eu fosse.
Pensei, comigo: Sera' um anuncio de que "tem brasileiro na loja", e que todos devem agucar os olhos contra furtos? Tinha ouvido essa historia no Brasil.
No dia seguinte, conclui' que eu estava errado, pois varias lojas adotam um sistema de hinos de motivação, entoado pelos funcionarios em uma especie de ritual para aumento do entusiasmo.
Mas naquela ocasiao, sai' da loja com aquela duvida, e com uma pequena sacola de compras.
Um quarteirao adiante, resolvi entrar em outra loja, dessa vez com uma sacola aberta em uma das maos.
Ja' a poucos passos da entrada, um vendedor indagou-me: "Posso ajuda-lo, senhor?"
Instintivamente, mostrei-lhe a sacola que eu carregava, perguntando-lhe, por seguranca: "Posso carregar esta sacola dentro da loja?"
O vendedor retrucou, imediatamente: "E' claro! Porque nao? Mas ha' algum produto especifico no qual eu possa ajuda-lo?"
Respondi que queria olhar toda a loja, e entrei, hesitante, com a sacola em uma das mãos.
Só então passei a pbservar que a presunção, no Japão, é de que todos são honestos.
Diferente do Brasil, onde qualquer supermercado exige que sacolas sejam lacradas antes de adentrar-se o recinto!
No Brasil, a presunção é de que TODOS são ladrões potenciais.
E esse mentalidade torta já foi assimilada pela população. Aceitamos de bom grado que nossas sacolas sejam lacradas, antes de adentrar um recinto de compras que é mantido por nossos gastos honestos.
Até nossos pais sexagenários submetem-se ao referido "procedimento profilático"!
Concordamos em submetermo-nos a essa "medida preventiva", pois achamos natural que todos sejam considerados pré-delinqüentes, em um país que convive com a delinqüência em todos os âmbitos, e aceita-a.
Tente impor uma medida dessa espécie em Tóquio, e o cidadão japonês identificará, de imediato, o equívoco e a afronta em tentar impor-se-lhe, ainda que em tese, a pecha de ladrão.
Seria uma ofensa à honra e ao amor-próprio, valores que o brasileiro relativizou e concordou em reduzir, sem sequer aperceber-se disso.
Caminhei de volta ao metrô, e as reflexões não abandonavam minha mente.
Recordei-me, então, de uma afirmação categórica que ouvi, certa vez, de um colega de trabalho, que afirmava que "todos têm seu preço", defendendo, em mero exercício retórico-filosófico, que qualquer cidadão é corrompível, desde que a paga seja adequada.
Discordei, e mantive minha discordância, embora em silêncio. Não adiantaria contra-argumentar, pois tal opinião aberrante assume tons de verdade no imaginário brasileiro.
Nesse aspecto, há muito despimo-nos de nossa honra. Aceitamos, com naturalidade, ser tratados unanimemente como ladrões e corruptos em potencial.
Foi intensa a vergonha que senti por enxergar os erros da minha cultura nativa, confrontados contra um cenário no qual afirmar-se honrado não e´motivo de chacota.
Em breve, retornarei ao meu país, para viver uma realidade na qual a população esclarecida presume culpado até o presidente da república, e todo o seu séquito. Nada fizemos nem faremos a respeito. Somos inertes e ignoramos referenciais externos.
Mas antes de retornar a esse raciocínio insano, recordarei, daqui de onde presume-se que todos têm ética, sem medo de soar ridículo, que sou honesto e respeito o próximo.
Se afirmasse isso no Brasil, longe do âmbito religioso, soaria como simples discurso vazio ou demagogia.
Com essas linhas, espero exorcizar a vergonha que senti ao descobrir o quanto é aviltada a auto-imagem que o brasileiro tem de si, e de perceber que assimilamos essa reduzida auto-estima cívica, e a levamos conosco nas visitas a sociedades verdadeiramente desenvolvidas.
Tóquio, 4 de fevereiro de 2006
Júlio César Machado
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