A Poeira Mágica da India

Existem, basicamente, duas formas de visitar a India: por pacote, contratado desde o Brasil, ou de forma independente, como optamos por fazer.
Nao gosto de viajar com pacotes fechados, pois a impressao que fica (ao menos para mim), e' que o visitante viu o pais de dentro de uma bolha: trafegando em vans ou micro-onibus pre-contratados, o visitante nao chega a travar contato direto com o cotidiano do povo visitado.
E' por isso que sempre faco viagens independentes. Em geral, nao reservo nenhum hotel antes de chegar ao pais de destino.
Chegando la', hospedo-me em um bom hotel que consiga encontrar; deixo as malas no quarto, e saio a caminhar.
Caminhar por um pais desconhecido e' como apalpa-lo, conecendo-o detalhadamente pelo metodo Braille.
Gosto de caminhar longamente, memorizando ruas, predios, monumentos. Enquanto caminho, fotografo pessoas e novidades. Aproveito para filmar, tambem.
Nao sou mero colecionador de imagens, mas elas, sem duvida, ajudar-me-ao a recordar com maior precisao os detalhes vivenciados. Ajudar-me-ao por toda a vida.
Caminhar e', portanto, atividade fundamental do viajante independente e capacitado.
Isso, porem, e' impossivel nos centros urbanos da India.
Pela primeira vez, apos visitar dezenas de paises, sinto-me desencorajado a caminhar pelas ruas dos aglomerados urbanos indianos.
E o motivo nao e' o cenario de miseria, indigencia e de sucessivos escombros pos-hecatombe que sao vistos por toda parte. Tambem nao se trata de medo de assaltos, nem de aversao a abordagem inclemente dos mendigos.
O vilao constante e' a onipresente POEIRA.
Quando se chega a Delhi, tem-se a primeira visao desse fantasma.
Cheguei a noite, e pensei, erroneamente, que se tratava de um belo "fog" oriundo de inversao termica, algo que lembarsse o nevoeiro da Londres antiga.
Mas logo na manha seguinte, ja' se ve que a verdadeira composicao desse espectro volante sao particulas em suspensao, e que ele se torna tao mais denso e espesso quanto mais nos aproximamos das estradas do interior do pais.
Em Kajuraho, pode-se inalar a poeira enquanto se admira a "fabricacao" de sua materia-prima: coco de bufalos, vacas, cachorros, camelos, cabras, bezerros, cavalos, porcos, jumentos, patos e seres humanos, todos transitando, urinando e defecando nas estradas dinamitadas.
Essa pasta putrida e' seca pelo sol inclemente, e incansavelmente revolvida pelas rodas dos automoveis, tuc-tucs, riquixas, bicicletas, e pelas pisadas da multidao acima relacionada.
Processe-se isso durante 24 horas por dia, num cenario caotico de um bilhao de seres em condicoes sub-humanas, e o resultado e' essa poeira "magica".
A magica que ela opera e' inacreditavel: consegue frear meu impulso e mantem-me longe das ruas, inibindo-me de apalpar este pais com os pes.
A magica da poeira frustrou meus planos de memorizar pormenores das ruas. Brindou-me com espirros, alergia respiratoria e uma febre branda, ja vencidas e debeladas.
Mas o pouco que caminhei, enfrentando bravamente o espectro, foi suficiente.
O pormenor que memorizei, e qe sobressaiu-se nesse cenario todo, foi a propria poeira, OBSTACULO-MOR e sintese perfeita da precaria, caotica e desestruturada India.
Julio Cesar
Varanasi, India, 3 de janeiro de 2006
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