Barong, o mitológico dragão balinês, cuja cabeça enfeita vários pórticos de entrada das residências, para espantar maus espíritosAntes de ir a Bali, pesquisei bastante a respeito das características de cada uma de suas localidades mais importantes. Li o guia Lonely Planet Bali & Lombok e consultei vária listas de discussão na internet.
Nessas pesquisa, descobri que os grandes resorts turísticos concentram-se em uma península chamada Nusa Dua (Ilha Dois, em português), próxima da praia de Kuta, e que praticamente tudo nessa região é culturalmente artificial: os resorts tentam recriar templos, espetáculos de dança e intercalam lojas bem ao estilo ocidental, frustrando as pretensões daqueles viajantes que desejam se aproximar um pouquinho do verdadeiro cotidiano e do autêntico folclore e cultura balineses. Resolvi que não ficaria em Nusa Dua nem em Kuta.
A capital, Denpasar, também não é um local adequado: populosa e destituída de grandes atrativos, Denpasar tem, para o turista, o único mérito de abrigar o aeroporto internacional, muito bom, por sinal, exceto pelo fato de permitir o fumo em áreas fechadas.
Resolvi ficar em Ubud,a cerca de duas horas de carro a partir de Denpasar, conhecida como capital cultural de Bali.
O título é merecido, pois Ubud concentra grande quantidade de templos, espetáculos permanentes de danças tradicionais (Legong, Kecak, Topeng, etc.), escultores em pedra, madeira, marfim, osso, etc., além de pintores que produzem quadros de altíssima qualidade, com técnicas que vão desde o tradicional nanquim até quadros de aparência impressionista e modernista.
A outra vantagem de ficar em Ubud, é que os preços são menores que os praticados em Nusa Dua. Além disso, estando no centro da ilha, é possível percorre-La por inteiro, de carro alugado com motorista. Contratei um jipe com motorista só para mim, com ar-condicionado e quilometragem livre para percorrer toda a ilha (o que eu realmente acabei fazendo, nos sete dias que permaneci em Bali), tudo isso por apenas 10 dólares por dia, ou o equivalente, na época, a 110.000 rúpias indonésias! Qualquer brasileiro de classe média é milionário em Bali.
No Palácio Real de Ubud, o dançarino executa a dança da espada tradicional (Kris)
Ubud, assim como a maioria das localidades em Bali, é uma cidade bastante segura (Brasil, tome vergonha na cara!). Fiquei sabendo pelo motorista que contratei, que o porte de qualquer arma é proibido (no aeroporto, via a mensagem logo no saguão de entrada: “Drogas e armas de fogo: Pena de Morte”), inclusive armas brancas, e que a população tinha o costume de “eliminar” eventuais praticantes de delitos que porventura insistissem em manchar a calma reinante em Bali.
De fato, senti um clima de extrema segurança em Ubud. Caminhava sempre sozinho, de dia ou de noite, sempre com câmera fotográfica e filmadora à mostra (geralmente em pleno uso, situação que normalmente torna o turista um alvo desprevenido) e o máximo que me acontecia eram ofertas insistentes de Táxi (moto-táxis, na realidade).
Dançarinas de Legong, com seus trajes riquíssimos, gestos lentos e movimentos oculares rapidíssimos
Quando cheguei no aeroporto de Denpasar, fui procurar um guichê onde pudesse reservar um hotel em Ubud. Não foi difícil: reservei um hotel por U$ 50,00 a diária, tomei um táxi e fui para Ubud.
O folheto do hotel - Fibra Inn - esclarecia que a proprietária era uma senhora, que na juventude foi grande dançarina de Legong.
O hotel era pequeno, mas as acomodações eram surpreendentes: quarto grande, decorado com belas esculturas de madeira de lei. O banheiro do quarto era adornado por uma deusa Shiva de metal imensa, com cerca de um metro de altura, repousada sobre o tampo do lavatório.
O espaço para banho era supreendente: o chão, cuidadosamente recoberto de pedregulhos, como em um jardim japonês, recebia uma cascata de água que fluía do jarro segurado por uma estátua de pedra vulcânica de dois metros de altura, na forma de uma figura tradicional balinesa. Sobre esse espaço, o teto era vazado, e podiam ouvir-se os cantos dos incontáveis pássaros que povoam a região próxima conhecida como floresta dos macacos.
Para completar, o quarto era polvilhado com flores, trocadas todas as manhãs. Nada mal para um viajante solitário, que sequer buscava tamanho refinamento.
Sob o céu escuro, a dançarina de Legong encena a leitura de uma carta
Boa parte dos espetáculos de dança que assisti, filmei e fotografei, foram apresentados no espaço que outrora era o Palácio Real de Ubud. Não sei o que ocorreu com a família real, mas Bali hoje insere-se na república Indonésia, com capital em Jacarta, na vizinha ilha de Java. Preciso visitar Java (farei isso em outra viagem) para conhecer Borobodur, o milenar e maior templo budista do mundo.
Júlio César, maio de 2001


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