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De São Paulo a Varsóvia

De São Paulo a Varsóvia, em maio de 2017

Em maio de 2017, quando estávamos a caminho da Polônia, com voo de Guarulhos-Lisboa-Varsóvia marcado para o dia seguinte, nosso amigo Frederico - um dos melhores (e maiores) anfitriões da atualidade - nos ofereceu uma prévia em grande estilo da música clássica polonesa, em um grande concerto da OSESP - Orquestra Sinfônica de São Paulo, na Sala São Paulo.  

Nas Notas do Concerto daquela noite, foram divulgadas as seguintes informações:

Notas de Programa

SZYMANOWSKI
Abertura de Concerto, Op.12

 

De 14 a 16 de setembro a Osesp receberá um dos principais compositores vivos, o polonês Krzysztof Penderecki, que regerá, além de peças de sua autoria, o Concerto nº 1 para Violino (1) (1933) de seu compatriota Karol Szymanowski. O concerto de hoje — que terá a regência da também polonesa Marzena Diakun — inicia-se com a Abertura de Concerto, Op.12, de Szymanowski. Composta ainda na primeira década do século XX, a Abertura se organiza a partir de referências estilísticas do final do século XIX, especialmente Wagner e Strauss. Destaca-se aqui o domínio técnico da escrita e a engenhosidade e clareza com que Szymanowski sobrepõe acontecimentos sonoros, mesmo em meio a uma densa massa orquestral.

 

 

MOZART
Concerto nº 17 Para Piano em Sol Maior, KV 453

 

Concerto nº 17 de Mozart, de 1784, começa com uma exposição da orquestra, com seu colorido de cordas em primeiro plano, deixando frestas para comentários precisos da flauta e dos oboés, sempre sustentados pelo par de fagotes. Ao fundo ouvem-se as trompas com suas longas notas sustentadas. A trama musical é ampliada com a entrada do piano solista, dois minutos depois, repetindo inicialmente o primeiro material temático exposto pela orquestra, mas, como é comum em Mozart, sugerindo suas próprias melodias na sequência.

 

Para uma escuta mais acurada dos concertos de Mozart, em vez de pensarmos em pares de opostos como primeiro e segundo temas, orquestra e solista etc., talvez seja mais apropriado procurarmos outros tipos de interação musical: triangulações, jogos, variações e surpresas. O movimento intermediário tem um tratamento que o aproxima da música vocal de Mozart; aqui, tanto o artesanato da trama polifônica das madeiras quanto alguns fragmentos da própria melodia principal ecoam o “Et Incarnatus Est” da Grande Missa em Dó Menor, composta pouco antes do Concerto nº 17. O último movimento é organizado a partir de variações de um tema principal, em dois andamentos contrastantes, um “Allegretto” seguido de um acelerado “Presto” em forma de “Finale”.

 

 

TCHAIKOVSKY
A Bela Adormecida, Op.66: Excertos 1 e 2 /TCHAIKOVSKY EM FOCO
VILLA-LOBOS
Alvorada na Floresta Tropical

 

Em seu ensaio “Tchaikovsky, Sinfonista Patético”, na Revista Osesp 2017, Richard Taruskin comenta a desaprovação que gradualmente ocorreu, durante o século XX, no status da obra do compositor. Taruskin explica que tal declínio jamais se deu com o público, e que “deve ser interpretado em parte no contexto da mudança do ‘poético’ para o ‘estrutural’ [...] como o critério mais importante para a avaliação artística [...]”. (2) Com a apresentação de seis importantes peças do compositor russo ao longo da Temporada 2017 da Osesp, teremos oportunidade de experimentar o que poderia ser uma escrita (ou uma escuta) mais “poética” ou mais “estrutural”.

 

À época da estreia do balé A Bela Adormecida, em 1890, Tchaikovsky era um dos compositores mais prestigiados (pela crítica e pelo público), dentro e fora da Rússia czarista. Baseado no conto de Charles Perrault, o balé de quase três horas de duração (em sua versão original) é contextualizado no século XVII, e conta a história da princesa Aurora, filha do rei Florestan XIV, que por obra de Carabosse, a fada má, adormece aos 16 anos de idade após ferir-se no dedo. Durante os cem anos em que, junto da princesa, toda a corte enfeitiçada cai em sono profundo, uma floresta envolve o castelo. E é nesse momento, em meio a esse mundo de feitiços e encantos que, como num passe de mágica — só no concerto de hoje —, a princesa Aurora em sonho transporta-se para o Brasil de Villa-Lobos, e sua Alvorada na Floresta Tropical.

 

“A alvorada, em qualquer floresta do Brasil, é para mim uma ouverture de cores acompanhadas pelo canto mágico e pelo chilrear dos pássaros tropicais, mas também pelos uivos, gritos, evocações e pelas exóticas e bárbaras danças dos índios nativos”, escreveu Villa-Lobos em uma carta de 17/01/1954 à época em que a peça foi encomendada, pela quantia de mil dólares, pela orquestra de Louisville (EUA). Nesse Villa da última fase é possível ouvir algo dos poemas sinfônicos dos primeiros anos, de sua verve pré-Choros e Bachianas.

 

Despertando subitamente desse desvio poético, depois da interpolação de Villa-Lobos, retornamos a Tchaikovsky e à segunda parte dos excertos selecionados de seu balé, rumo a um final feliz. Ouvir A Bela Adormecida em 2017, à luz dos diálogos com Szymanowski, Mozart e Villa-Lobos, nos permite possivelmente uma outra leitura, distanciada não apenas desta peça, mas também de boa parte da obra do compositor russo. Uma leitura que não tenha mais que optar necessariamente entre o poético (do século XIX) e o estrutural (do século XX), mas que possa talvez encontrar, neste século XXI, estruturas sob os devaneios, ou poesia na arquitetura.



Trajados de forma adequada ao evento, como aquecimento às futuras andanças pela visita que planejávamos ao Balé Bolshoi, em Moscou.

Além de anfitrião, o fotógrafo da noite também foi o Fred, registrando desde o início da noite solene. 

Ao nosso repertório de música clássica polonesa, que até então se restringia a Frédéric Chopin, acrescentamos o Concerto nº 1 para Violino (1) (1933) de Karol Szymanowski, apresentado naquela noite.  

A caminho de Varsóvia, pela TAP, fizemos escala no aeroporto de Lisboa, onde incluímos no lanche os famosos Pastéis de Belém.

Chegamos em Varsóvia no começo da tarde, mas foi só à noite que vencemos o cansaço da longa viagem desde São Paulo, com escala em Lisboa. E naquela noite mesmo fizemos as primeiras fotos do impressionante monumento logo à frente do hotel Ibis Warszawa Stare Miasto, composto por um vagão de trens carregado de cruzes.
   
Na manhã seguinte, fizemos questão de fotografar o monumento em preto-e-branco. Embora tirada hoje, a foto monocromática amplia o sentimento de aflição que nos inspirou a visão do Monumento aos Mortos e Assassinados no Leste (Monument to the Fallen and Murdered in the East).  


Inaugurado em setembro de 1995, o monumento homenageia as vítimas da invasão soviética durante a II Guerra Mundial e repressões seguintes, incluindo os deportados à Sibéria e os assassinados no massacre de Katyn. No monumento há a inscrição "pelas vítimas da agressão soviética 17.IX.1939. A Nação Polonesa 17.IX.1995")

 

Posando de fotógrafo em Varsóvia.

A coleção em 3 volumes de Zizo Asnis serviu de inspiração para a viagem.

Caminhando na Praça do Castelo, em Varsóvia.

Grande fonte de inspiração, o livro de Francis Tapon - Europa Escondida - revela a imensidão pouco explorada nos países do Leste Europeu.

Júlio César  Izaura, Maio e Junho de 2017




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